Cuidados na dispensação de medicamentos antineoplásicos injetáveis

Entenda o papel do farmacêutico na dispensação de medicamentos antineoplásicos e a importância de seguir estratégias para alcançar sucesso terapêutico

A dispensação de antineoplásicos injetáveis é uma etapa crítica no tratamento de pacientes com câncer. Nesse contexto, os farmacêuticos oncologistas desempenham um papel fundamental ao seguir as diretrizes específicas e boas práticas no preparo e dispensação de medicamentos oncológicos. Desde a avaliação da prescrição médica até o acompanhamento farmacêutico, cada etapa contribui para o sucesso da terapia antineoplásica.

Neste artigo, exploraremos os cuidados essenciais na distribuição de medicamentos oncológicos, destacando a importância da prevenção de erros de medicação. Erros de medicação, mesmo sem causar danos imediatos, podem afetar a segurança e eficácia do tratamento oncológico. 01 02 Os medicamentos antineoplásicos apresentam um risco elevado de erros com consequências graves, 03 que podem ser atribuídos a vários fatores, incluindo: 04

  1. Índice terapêutico estreito: muitos fármacos têm um índice terapêutico estreito, o que torna crucial a administração precisa das doses.
  2. Reações adversas: mesmo com doses usuais, os efeitos tóxicos podem ocorrer durante o tratamento.
  3. Complexidade dos protocolos terapêuticos: o elevado número de protocolos terapêuticos e a extensa opção terapêutica de suporte envolvendo vários medicamentos com diferentes esquemas de dosagem aumentam o risco de erros.

Estratégias para melhorar a segurança no uso de medicamentos de alto risco

No processo de uso de medicamentos, é fundamental adotar estratégias para aumentar a segurança, especialmente quando se trata de medicamentos de alto risco, como os antineoplásicos. Algumas dessas estratégias incluem:

Avaliação de prescrição médica

  • A análise de prescrições 04 de medicamentos oncológicos é uma das etapas mais importantes de todo o processo da terapia antineoplásica.
  • O farmacêutico deve analisar minuciosamente os componentes presentes na prescrição médica, considerando aspectos como dose, qualidade, compatibilidade, estabilidade e interações medicamentosas. Além disso, o profissional deve examinar os protocolos estabelecidos pela equipe multidisciplinar de terapia antineoplásica e verificar a legibilidade e identificação de registro do prescritor no Conselho Regional de Medicina (CRM). 05
  • A avaliação criteriosa das prescrições contribui para evitar erros de dispensação, falta de adesão ao tratamento, necessidade de medicamentos adicionais, uso inadequado de fármacos, reações adversas indesejadas e doses subterapêuticas ou excessivas. 06 07

Acompanhamento farmacêutico 08

  • O acompanhamento farmacêutico é uma ferramenta valiosa para garantir que os medicamentos sejam utilizados de maneira adequada, minimizando riscos e maximizando benefícios.
  • O farmacêutico documenta informações essenciais para, sistemática e continuamente, melhorar a saúde e a qualidade de vida do paciente.
  • O perfil farmacoterapêutico registra detalhes relevantes sobre a utilização de medicamentos pelo paciente, incluindo doses, interações, reações adversas e histórico de tratamento.
  • Por meio desse perfil, o farmacêutico pode identificar oportunidades para otimizar a terapia, prevenir interações medicamentosas indesejadas e promover o uso seguro e eficaz dos medicamentos.

Farmacovigilância

A farmacovigilância desempenha um papel crucial na minimização dos efeitos adversos dos medicamentos. Além disso, ela garante a segurança do uso racional de medicamentos (URM). 08 É essencial para o farmacêutico compreender sua relevância, pois as notificações desempenham um papel fundamental na orientação dos pacientes sobre possíveis reações adversas associadas ao uso de medicamentos específicos. 08

Para fortalecer a segurança, é importante: 09

  • Avaliar regularmente o risco nos sistemas e práticas utilizadas para apoiar o uso seguro de medicamentos.
  • Consultar informações em fontes internas e externas, como The Joint Commission e Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos (ISMP).
  • Estabelecer medidas de resultados e processos para monitorar a segurança.
  • Coletar dados rotineiramente para determinar a eficácia das estratégias de redução de riscos.

Recomendações ISMP


O tipo de erro (prescrição, manipulação, dispensação, administração, entre outros) definirá a complexidade e as consequência dos efeitos ou danos no paciente. Um exemplo notório é o caso da vincristina, em que são relatados erros com desfechos graves. Devido a esses fatores, o ISMP e outras organizações que trabalham com a segurança do paciente sugerem a implantação de práticas que auxiliem a minimizar a ocorrência de erros nas instituições de saúde. 10

Essas práticas incluem:

  • Elaborar protocolos detalhados no preparo e na dispensação de quimioterapia, incluindo informações sobre dose usual, via de administração compatível, tempo de infusão, sequência adequada de administração dos medicamentos, reações adversas esperadas e sinais e sintomas de alerta para detecção dos eventos adversos graves. 11
  • Implantar programa de educação contínua para profissionais da equipe multidisciplinar de terapia antineoplásica. 11
  • Realizar dupla checagem (duplo check), independentemente das circunstâncias, em todas as etapas do processo de uso dos antineoplásicos, considerando como critérios mínimos de identificação do paciente, medicamento, da dose e da via de administração, sobretudo no caso de administração por via intratecal. 11
  • Armazenar medicamentos antineoplásicos com nomes ou embalagens semelhantes em locais separados, distantes uns dos outros. 11
  • Implantar sistema informatizado de prescrição de antineoplásicos. Não aceitar prescrição verbal de antineoplásicos, o que minimiza a ocorrência de erros durante o preparo e a dispensação. 11
  • Não utilizar abreviaturas que possam confundir a interpretação da prescrição (a exemplo de “MTX” para “metotrexato”). 11
  • Utilizar embalagens e rótulos distintos para identificar medicamentos a serem administrados por via endovenosa e intratecal. 11
  • Compartilhar as experiências de erro ou quase erro, realizar análise de causa raiz e desenvolver análise de modo e efeito de falha (FMEA) para identificar os pontos vulneráveis dos processos de trabalho e direcionar as estratégias para prevenção de erros. 11
  • Ao manipular e dispensar medicamentos em seringa, assegurar sua identificação correta utilizando etiquetas contendo nome do paciente, nome do medicamento, dose e via de administração. 12
  • Bolsas de infusão com preparações de alcaloides da vinca (como vinCRIStina, vimBLAStina e vinorelbina) devem ser identificadas com a seguinte etiqueta de alerta: 12

USO SOMENTE POR VIA ENDOVENOSA. FATAL SE ADMINISTRADO POR OUTRA VIA

  • Disponibilizar bases de informações integradas aos sistemas de prescrição e dispensação para alertar sobre situações de risco nos atos da prescrição e dispensação (por exemplo, limites de dose, necessidade de diluição e histórico de alergia do paciente). 12
  • Fornecer informações técnicas sobre os medicamentos, tais como as doses máximas permitidas dos medicamentos potencialmente perigosos. 12
  • Analisar o resultado das estratégias de prevenção por meio de dados objetivos, com uso de indicadores medidos ao longo do sistema de utilização de medicamentos e de acordo com as particularidades de cada instituição de saúde. 12

Conclusão

A aplicação dessas estratégias requer comprometimento e adaptação contínuos às necessidades dos pacientes oncológicos. A atuação responsável e técnica do farmacêutico é fundamental para evitar problemas relacionados a medicamentos durante a dispensação de medicamentos antineoplásicos, sendo necessário conhecimento e uma formação constante e atualizada, buscando assim contribuir de forma significativa para a segurança do paciente oncológico.


Referências

  1. Back to contents.

    Aguiar KS, Santos JM, Cambrussi M, Picolotto S, Carneiro MB. Segurança do paciente e o valor da intervenção farmacêutica em um hospital de câncer. Einstein. 2018;16:2-7.

  2. Back to contents.

    Aronson JK. Medication errors: definitions and classification. Br J Clin Pharmacol. 2009;67(6):599-604.

  3. Back to contents.

    Gandhi TK, Bartel SB, Shulman LN, Verrier D, Burdick E, Cleary A, et al. Medication safety in the ambulatory chemotherapy setting. Cancer. 2005;104(11): 2477-83.

  4. Back to contents.

    Schwappach DLB, Wernli M. Medication errors in chemotherapy: incidence, types and involvement of patients in prevention. A review of the literature. Eur J Cancer Care. 2010;19(3):285-92.

  5. Back to contents.

    Resolução nº 565, de 6 de dezembro de 2012. Dá nova redação aos artigos 1º, 2º e 3º da Resolução/CFF nº 288, de 21 de março de 1996. Diário Oficial da União. 6 dez 2012.

  6. Back to contents.

    National Coordinating Council for Medication Error Reporting and Prevention. NCC MERP Index for Categorizing Medication Errors Algorithm; 1996 [revised February 20, 2001]. Disponível em: http://www.nccmerp.org/types-medication-errors.

  7. Back to contents.

    Akermani M, Freitas O. Pesquisa nacional sobre acesso, utilização e promoção do uso racional de medicamentos (PNAUM): avaliação dos serviços de atenção farmacêutica primária. Revista Saúde Pública. 2017;50(2):3-12.

  8. Back to contents.

    Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo. Manual de orientação ao farmacêutico: aspectos legais da dispensação. São Paulo: CRF-SP; 2017.

  9. Back to contents.

    Institute for Safe Medication Practices. Three New Best Practices in the 2022-2023 Targeted Medication Safety Best Practices for Hospitals. ISMP Medication Safety Alert! Acute care edition. 2022;27(3):1-6.

  10. Back to contents.

    Santos LD, Jacoby T, Ness S, Guerra G, Wayhs CA. Prescribing errors involving antineoplastics and others drug centre of preparation of injectable drugs. Rev Bras Farm Hosp Serv Saude. 2020;11:0335.

  11. Back to contents.

    Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos. Antineoplásicos parenterais: erros de medicação, riscos e práticas seguras na utilização. 2014;3(8).

  12. Back to contents.

    Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos. Boletim ISMP Brasil. Belo Horizonte: ISMP Brasil; 2019.

NPS-BR-00526 | Fevereiro de 2025